CARLA BRUNI, OUTONO E FOTOGRAFIA

CARLA BRUNI, OUTONO E FOTOGRAFIA

Autor(a) Bykynys in New York

Upload 2008-11-03 00:50

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A CULTURA DO INSTANTÂNEO FILOZUFANDUS | o livro


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Resumo

O que torna o nosso tempo interessante é o facto de a aparente ausência de moda se impor afinal como moda. A crónica, por exemplo, exige actualidade, realismo, humor, vivacidade, relações hábeis, imagens simples e sarcásticas. Enfim, discurso escorreito e mensagem embalada em pacote de ludema. Escrever de outro modo - ou sobre matérias inadequadas -, como por exemplo acerca dos suspiros de Hildegarda de Bingen ou acerca da intemporalidade do Outono, é, desde logo, motivo para baixas audiências e para uma tremenda seca. Mas hoje, caros leitores, não me apetece outra coisa. Peço desculpa. Daí a pergunta descabida: o que é o Outono? Sim, vamos lá... talvez o Outono seja o período em que existe um avivar muito particular da memória. Sempre entendi a estação como um momento de óptima definição das cores, quer na paisagem, quer no modo como a imaginação realça o permanente fio da rememoração. Como se os afectos mais subterrâneos emergissem para nos surpreender. Estação poética, talvez. Tal como na fotografia já amarelada que é capaz de maravilhar por causa do mistério que deixa em aberto: o rosto estranho que sorri, a planta inerte a espreguiçar-se no vaso, ou a rugosidade da parede a denunciar o tempo a possa ter fulminado. Mas o de que é feita uma fotografia (lá vem mais uma matéria inadequadíssima à identidade da crónica)? Uma fotografia faz frente ao programa mais ordenado, ao enigma fechado ou à conjura controlada. Uma fotografia faz o seu caminho apagando-o e, quase sempre, removendo o que parece limitá-la. Uma fotografia diverge das silhuetas que cordatamente dá a ver. Ao contrário do milagre, a fotografia está sempre a mudar de estado.
( continua em www.filozufandus.com )